Uma das primeiras coisas que aprendemos em investimentos é que devemos considerar três características principais de um produto antes de investir nele. A primeira destas características é a rentabilidade, a segunda o risco e a terceira a liquidez. A mais famosa e buscada pelos investidores é a rentabilidade. Quanto maior a rentabilidade histórica ou maior a promessa de rentabilidade de um investimento mais cobiçado ele se torna, dado um mesmo nível de risco e liquidez. Afinal quem não quer ficar rico da noite para o dia?

Já o risco é considerado por um número menor de pessoas, geralmente investidores mais experientes e profissionais do mercado, mas ainda assim muito discutido amplamente entre os investidores em geral. Já a liquidez, que representa a facilidade ou rapidez de se transformar o investimento em dinheiro, é geralmente ignorada pela grande maioria dos investidores, mesmo alguns profissionais vez e outra passam por dificuldades envolvendo esta última.

Mercados eficientes e controvérsias

Uma segunda coisa que aprendemos, mas que não é consenso nos trabalhos acadêmicos é a teoria que diz que os mercados são eficientes. Essa teoria nos diz que o preço de mercado sempre está certo e que é impossível, no longo prazo, superá-lo. Em cenários de baixa percepção de risco, essa premissa parece ser válida, mas muitos a contestam em momentos de crise, principalmente por causa de os grandes investidores aproveitarem este momento para fazer seus grandes aportes e seus históricos de rentabilidade se mostrarem muito superiores ao do mercado.

Acredito que a falha aqui está no fato de a Teoria dos Mercados Eficientes não abranger o preço da liquidez. Explico. Normalmente o preço dos ativos (ações, fundos imobiliários, etc) são precificados com base nos rendimentos futuros estimados (usando fluxo de caixa descontado, por exemplo). Essa visão abrange nada mais do que a análise da rentabilidade esperada do ativo. Na análise, os investidores e gestores consideram a hipótese de estarem errados. Adicionam margens de segurança, verificam os índices de endividamento das empresas, índices de liquidez corrente, desvio-padrão das cotações, análise setorial e análise macroeconômica entre outras coisas, a fim de terem maior segurança em suas escolhas. Isso é a análise do risco do ativo. Com base em ambos definem um preço-alvo para o ativo, que se for maior que o de mercado, compra-se o ativo, pois ele está barato. Já se for inferior, vende-se o ativo, pois está caro.

Quem ganha e quem perde dinheiro na bolsa com a crise?

Perceba que a análise do valuation de um ativo envolve rentabilidade e risco, mas não sua liquidez. Esta, óbvio, é consultada pelos investidores e gestores, mas não é incorporada ao seu preço. Vamos pegar por exemplo o caso de Petrobras, para uns uma boa empresa para outros uma incógnita. A ação já esteve a R$ 30,00, já esteve a R$ 4,00, mas permanece uma das empresas mais líquidas de todas. Mas tudo isso em circunstâncias normais. Em momentos de pânico e crises, diante de rentabilidades negativas expressivas e de um risco percebido maior e com a falta de compradores dispostos a comprar o ativo, adivinha quem brilha? Isso mesmo, a liquidez, ou a falta dela. Se você não sabe como funciona uma crise, clique aqui para ler este texto da Sharke Insights sobre o assunto.

Nas crises, investidores alavancados precisam liquidar suas posições, day-traders precisam gerar lucro para pagar suas contas, e para isso precisam minimizar seus prejuízos por meio de mecanismos stop-loss ou mesmo têm suas posições liquidadas automaticamente por meio do mecanismo da chamada de margem. Operando no vermelho, tendo que vender suas posições, mas o mercado já caiu muito e não tem tantas pessoas dispostas a comprar (falta de liquidez). Neste cenário, temos duas pessoas em negociação, a primeira precisando pagar as contas para não falir, e a segunda com dinheiro podendo prover liquidez. Nessas condições desvantajosas, quem precisa de liquidez precisar "pagar um prêmio" a quem pode prover liquidez e esse prêmio é pago pela venda dos ativos num preço mais barato. Este desconto é o preço da liquidez, que é ignorado pela gigantesca maioria dos investidores.

É nessas horas que mega investidores como Warren Buffet, Luiz Barsi, ou gestores de fundos como o Henrique Bredda do Alaska Asset Management e Luis Stuhlberger fundo da Verde Asset Management, entram na bolsa, comprando ações baratas, provendo liquidez a pessoas desesperadas que trocam seus ativos a qualquer preço, porque o custo da liquidez são dívidas que não podem ter.

Mais do que ganhar, escolhendo boas empresas, ganham vendendo liquidez para quem desesperadamente precisa delas.