Desde que foram criados, os fundos da gestora Alaska acumularam dezenas ou até centenas de milhares de pessoas que destinaram a Henrique Bredda e companhia, a responsabilidade de gerir parte ou mesmo a totalidade de seus investimentos. Se no início o fundo contava apenas com os patrimônios dos sócios, e com o aporte de Luiz Alves Paes de Barros, um dos maiores investidores pessoa física da bolsa, atualmente alguns de seus fundos contam com o patrimônio de mais de 150 mil cotistas.

A performance entregue no período não decepcionou. A Alaska foi uns dos poucos a surfar a onda de valorização das ações de Magazine Luiza (MGLU3). De janeiro de 2016 a dezembro de 2019 o principal fundo da gestora o Alaska Black FIC FIA - BDR Nível I acumulou um crescimento de mais de 700%. Enquanto isso, o fundo long only da gestora, o Alaska Black Institucional FIA, acumulou no período de fevereiro de 2017 até dezembro de 2019 uma valorização de 162,85%. No entanto, todos esses rendimentos viraram poeira com a recente crise do coronavírus. Do topo em 23/01/2020, o Fundo Institucional acumula uma perda de 41% e o BDR Nível I uma perda de 67%. Mas porque isso aconteceu?

O Fundo Institucional

Comecemos pelo fundo institucional que, como já mencionado, investe puramente em ações e representa a parte de ações do fundo BDR Nível I. Suas maiores posições antes da pandemia eram Magazine Luiza (MGLU3) e Petrobras (PETR4). Com a quarentena, as ações de todas as empresas caíram bastante, essas duas, no entanto, caíram ainda mais. Magazine Luiza, empresa do setor de varejo, caiu de quase R$59,00 para um mínimo de R$ 28,81, devido a uma maior incerteza quanto a demora da recuperação econômica após a quarentena, bem como a alguns fatores externos à própria empresa. Já a Petrobras teve suas ações saindo da casa dos R$31,00 para R$11,29 devido principalmente à guerra de preços entre os maiores produtores de petróleo do mundo, quando, logo após o início da crise, Arábia Saudita e Rússia não entraram em acordo para corte da produção, situação que deve ser resolvida apenas agora no início de Maio. Além disso, todo o cenário de quarentena e restrição de circulação de veículos e vôos diminui a demanda por petróleo no curto prazo.

O fundo tinha, ainda, posições relevantes em empresas de commodities, como Suzano, Klabin, a própria Petrobras e apostava em um ciclo de recuperação destas empresas à medida que o preço de seus produtos se recuperasse no mercado internacional com uma demanda maior por estas matérias-primas nos próximos anos puxada por uma maior atividade econômica global. A crise, no entanto, mostrou que este ciclo de recuperação deve ser mais longo do que o previsto.

Outro setor cujo fundo tinha posição relevante e que foi atingido forte pela crise é o setor educacional. Kroton Educacional (COGN3) dona de várias faculdades e outras empresas educacionais espalhadas pelo país, vinha de uma reestruturação do seu modelo de negócios, anteriormente baseado no FIES, mas teve suas operações físicas paralisadas por conta de vários decretos suspendendo aulas pelos Estados.

O Fundo BDR Nível 1

O fundo também é focado em ações, entretanto tem um regulamento permissivo. Praticamente qualquer ativo pode entrar na carteira. Por exemplo, desde setembro de 2015 o fundo está vendido em dólar, e há posições de juros, derivativos e no passado, até BDRs. As ações do fundo BDR Nível 1 são as mesmas do fundo Institucional, logo, bebiam do mesmo racional de ter posições relevantes em mercado doméstico acreditando na retomada da economia, na tese de que a aceleração econômica do Brasil pode ser vantagem competitiva em relação a desaceleração do mundo, e que no relativo, o Brasil teria uma vantagem em relação aos demais.

Aí chegou o COVID-19 e o fundo teve desvalorização de mais de 70%, do topo ao fundo, conforme gráfico a seguir:

Histórico de rentabilidade de 02/02/2020 até 26/06/2020
Histórico de rentabilidade de 02/02/2020 até 26/06/2020

O que aconteceu? A culpa foi dos derivativos?

Segundo Henrique Bredda, o fundo está 100% comprado em ações, mas não só com ações. Os fundos da Alaska prezam pela liquidez, então 25% do fundo é caixa e PUTs. O Alaska Black FIC FIA - BDR Nível 1 faz o lançamento de PUTs de valores altos, de ativos da carteira, para geração de caixa. Em caso de queda da ação, a PUT a ser lançada entra em tendência de queda de valor. Em caso de subida da ação, a PUT lançada pode ser vendida mais cara. Entretanto, nesse cenário de subida, o foco seria a valorização da ação e não tanto do valor do lançamento da PUT.

E o dólar vendido?

Essa é uma posição que parece controversa num primeiro momento. O dólar vendido serve como proteção para empresas com faturamento dependente de dólar e apostando também que não haveriam tantos cortes da taxa SELIC. Em caso de desvalorização da moeda americana e por consequência o faturamento de algumas empresas, a posição vendida em dólar compensa a operação. Entretanto, o Alaska BDR também possui um mecanismo de proteção deste dólar, visto que pode ser uma posição difícil de carregar. A proteção está em posições compradas e vendidas em contratos futuros de juros. Ou seja, de fato operando mercado de juros. Segundo o próprio Henrique Bredda, a gestão tem preferência pelo contrato de juros futuros curtos. Seja para proteção (hedge) tradicional, seja para busca de movimentos direcionais. Por exemplo, em momentos de incertezas, uma fuga para o dólar eleva sua cotação e na outra ponta, as taxas de juros futuros tendem a subir. Entretanto, o que aconteceu foi justamente o contrário. As taxas de juros futuros mais curtos tiveram quedas muito significativas devido a política monetária brasileira e o dólar explodiu para cima, passando pela faixa R$ 5,10 no ápice da crise na segunda quinzena de março.

O que aconteceu?

Queda generalizada de ações, queda forte em ações de commodities, queda forte em ações ligadas a consumo, estratégias direcionais de juros, dólar vendido e nada nos derivativos. Essa foi a receita para perder muito dinheiro num cenário de quedas tão rápidas na bolsa com a crise do coronavírus. Como a perda chegou a níveis expressivos, o fundo se viu obrigado a zerar as posições direcionais de juros futuros e dólar. Segundo o gestor Henrique Bredda, o movimento se justifica devido ao mercado ter perdido referência de preço, e que em momentos como esses é mais interessante zerar posições e remontá-las num momento posterior.

O que mudou?

Opções! Mais opções. Além das PUTs mencionadas anteriormente, a gestão já declarou que substituiu parte das posições direcionais de juros e dólar por opções relacionadas a retomada do crescimento econômico. Mas não foram declarados os ativos dessas opções. Se realmente são opções de juros e dólar, ou se são de ações. Assim, em caso de momentos de grande estresse como o da crise atual, a perda estaria limitada a aplicação nestas opções. Houveram também ajustes na carteira de ações. Como por exemplo a redução de Vale, por acreditarem que deveria ter caído mais e aumento de Magazine Luiza por acreditarem ter caído demais.

Melhor cenário para o fundo?

A resposta é simples: um fundo com exposição completa em Brasil precisa de um desenvolvimento econômico forte do próprio Brasil. Crescimento acontecendo, valorização do real, desvalorização do dólar, incerteza baixa levando juros futuros para níveis controlados. E tudo isso virou pó com a crise do coronavírus. Mas estariam reservados bons momentos para os fundos da Alaska Management no futuro?