Desde o início da crise do coronavírus, o Ibovespa perdeu mais de 42% do seu valor, quase 2 trilhões de reais, seguindo a tendência de bolsas de valores pelo mundo afora. Refletindo essa queda, alguns fundos de investimento que investem no mercado de ações como o Alaska Black e o Equitas Selection, perderam mais de 50% do seu valor desde o topo histórico. Essa é a maior crise financeira desde 2008 e não há sinais de arrefecimento nos próximos dias. Mas você já se perguntou, como ou quais são os mecanismos que ativam as grandes quedas nos valores das ações?

1. Evento inesperado que reverte o consenso de mercado

Pessoas, empresas e governos (às vezes) trabalham na direção de aumentar os negócios e os lucros de todos dentro de uma economia. Quanto mais lucro todos têm, mais a economia tende a andar melhor, por isso, em circunstâncias normais, o consenso geral dos investidores é de que a economia deve crescer, pois as forças internas trabalham para isso. No entanto, de vez em quando, eventos ocasionados por uma descoordenação dessas forças internas (crise do petróleo) ou por um evento externo (como o coronavírus), provocam uma alteração brusca do consenso do mercado.

2. Investidores Alavancados

Investidores alavancados (pessoas jurídicas ou físicas) operam com mais dinheiro do que realmente têm. Fazem seus investimentos mirando em um cenário econômico que caso não se realize pode trazer perdas substanciais. Para controlar essas perdas, ativam o mecanismo de stop loss, em que um algoritmo vende suas posições caso a perda patrimonial seja superior a um determinado valor. No cenário atual, alguns investidores alavancados apostaram no cenário de economia indo bem. No entanto, o mercado ao perceber que o coronavírus era uma situação mais séria, reverteu as expectativas, enquanto o crescimento global estimado era de 2,4% antes da epidemia, agora fala-se em recessão. Essa reversão das expectativas provoca uma primeira queda que em seguida ativa os mecanismos de stop loss destes investidores que iniciam um ciclo em cadeia de vendas das posições. Quanto mais cai, mais stop loss são acionados vendendo mais ações estimulando uma queda maior.

3. Busca de Liquidez

Alguns investidores após terem muita perdas, precisam liquidar totalmente suas posições para arcar com dívidas contraídas, seja nas chamadas de margem, seja no banco, etc. Estes investidores precisam arcar com seus compromissos e transformar tudo o que tem em dinheiro (busca de liquidez), não importa o preço. Vendem suas ações no preço de mercado para arcar com estes compromissos. Numa crise, muitos investidores alavancados precisam fazer isso, o que derruba ainda mais o preço.

4. Investidor de longo prazo x Day Trader

Existem dois tipos principais de pessoas na bolsa, o investidor de longo prazo, que coloca na bolsa apenas o dinheiro que não irá necessitar no curto prazo. Seu objetivo é se tornar sócio de boas empresas, acompanhar seu crescimento e receber dividendos cada vez maiores. O segundo perfil é o Trader, que faz da negociação de ações uma profissão. Por ser seu ganha-pão, o trader precisa no final do mês ter conseguido um resultado positivo de suas negociações e por isso precisa gerenciar seus riscos de perda. Por isso monta posições com o stop loss, que vendem suas ações caso elas atinjam um determinado nível de perda. Caso alguma de suas posições dê errado, ele precisa montar novas posições para fazer render, lembre-se ele precisa pagar as contas no final do mês. O que acontece em crises, é que o trader se desfaz consistemente de suas posições buscando lucro, e embora tenha perdas, vende ações hoje para recomprar amanhã porque acha que vão estar mais baratas, e a operação gerará lucro. O Trader adiciona liquidez ao mercado, isso quando não é o operador alavancado que está tendo prejuízo. Já o investidor de longo prazo, como não depende do dinheiro no momento, visualiza a queda da bolsa como boas oportunidades de compra, afinal estará comprando de pessoas desesperadas para vender.

Qual o passo a passo de uma crise?

Primeiro, um evento relevante que reverte o consenso de mercado de que a bolsa iria continuar subindo nos próximos meses. Na crise atual o coronavírus foi o primeiro estopim, depois a briga de Arábia Saudita e Rússia pelo preço do petróleo. Após estes eventos, os mecanismos de stop loss dos investidores alavancados são acionados, e estes investidores começam a buscar liquidez vendendo suas posições. No meio do caminho, day-traders e investidores de longo prazo dão a liquidez para que estas pessoas possam sair do mercado, mas neste ponto, devido à grande queda, o mercado perde a referência de preço. Devo comprar agora ou esperar cair mais 10%, devo vender agora e recomprar mais barato? Por isso, diariamente tem grandes oscilações, em dias de queda o mercado cai muito e em dias de alta sobe muito.

O fim da crise

A crise só começa a finalizar, quando:

  1. Os motivos que deram início a ela se dissipam (na crise atual quando o surto de coronavírus for controlado, e/ou quando houver um acordo no preço do petróleo) ou eles se naturalizam e são incorporados nos modelos de estimativas dos investidores.
  2. Os primeiros balanços dos governos e empresas pós-crise começam a ser publicados. E o mercado tem uma noção do tamanho real do prejuízo bem como da velocidade de recuperação da crise.

O que fazer em uma crise?

Se você é um investidor de longo prazo, certifique-se de não precisar do dinheiro no curto prazo e continue fazendo o que sempre fez, compre barato as boas ações, ou os bons fundos de investimento. Embora as ações caiam por bons motivos, elas caem mais do que deveriam devido à busca por liquidez e aos mecanismos de stop loss. Ah, é importante lembrar, NÃO TENTE VIRAR TRADER DA NOITE PARA O DIA. Se você é trader, busque montar estratégias de ganho nas duas pontas e use a volatilidade ao seu favor.